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O que eu vi, o que nós veremos

By on ago 11, 2016 in Tecs |

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Trecho do livro de Santos Dumont, publicado em 1918, onde ele fala sobre a invenção do avião e a polêmica com os irmãos Wright. O conteúdo completo do livro está disponibilizado em http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bi000197.pdf

Eu não quero tirar em nada  o mérito dos irmãos Wright, por quem tenho a maior admiração;  mas é inegável  que, só depois de nós, se apresentaram eles com um aparelho superior aos nossos,  dizendo  que era cópia de um que tinham construído antes dos nossos. Logo  depois dos irmãos Wright, aparece Levavassor  com o aeroplano “Antoinette”, superior a tudo quanto, então, existia; Levavassor  havia já 20 anos que trabalhava em resolver o problema do vôo; poderia, pois, dizer que o seu aparelho era cópia de outro construído muitos anos antes. Mas não o fez.

O que diriam Edison, Graham Bell ou Marconi se, depois que apresentaram em público a lâmpada elétrica, o telefone e o telégrafo sem fios, um outro inventor se apresentasse com uma melhor lâmpada elétrica, telefone ou aparelho de telefonia sem fios dizendo que os tinha construído antes deles?!

A quem a humanidade deve a navegação aérea pelo mais pesado que o ar? Às experiências dos irmãos Wright, feitas às escondidas (eles são os próprios a dizer que fizeram todo o possível para que não transpirasse nada dos resultados de suas experiências) e que estavam  tão ignoradas no mundo, que vemos todos qualificarem os meus 250 metros de “minuto memorável na história da aviação”, ou é aos Farman, Bleriot e a mim que fizemos todas as nossas demonstrações diante de comissões científicas e em plena luz do sol?

Nessa época, os aparelhos eram grandes, enormes, com pequenos motores, voavam devagar, uns 60 quilômetros por hora ou pouco  mais. Mandei, então, construir  um  motor especial de minha invenção, desenhado especialmente para um aeroplano minúsculo. Este motor possuía dois cilindros opostos, o que trás a inconveniência da dificuldade de lubrificação, mas, também, as vantagens consideráveis de um peso pequeno e um perfeito equilíbrio, não ultrapassado por qualquer outro motor. Pesava 40 quilos e desenvolvia 35 HP. Nunca se conseguiu um motor fixo, resfriado a água,  e de peso insignificante, somente igualado, mais tarde, pelos motores rotativos, aos quais, entretanto, fui sempre contrário, desde  o seu aparecimento. Hoje, 10 anos passados,  parece-me, confirma-se esta minha apreciação,  pois o motor fixo tem tido uma aceitação geral.

A “Demoiselle” media 10 metros quadrados de superfície de asas; era 8 vezes menor que o 14-bis! Com ela, durante um ano, fiz vôos todas as tardes e fui, mesmo, em certa ocasião, visitar um amigo em seu Castelo. Como era um aeroplano pequenino e transparente, deram-lhe o nome de “Libelule” ou “Demoiselle”. Este foi, de todos os meus aparelhos, o mais fácil de conduzir, e o que conseguiu maior popularidade. Com ele obtive a “Carta de piloto” de monoplanos. Fiquei, pois, possuidor de todas as cartas da Federação Aeronáutica Internacional: – Piloto de balão livre, piloto de dirigível, piloto de biplano e piloto de monoplano.

Durante muitos anos,  somente eu possuía todas essas cartas, e não sei mesmo se há já alguém que as possua. Fui pois o único homem a ter verdadeiramente direito ao título de aeronauta, pois conduzia todos os aparelhos aéreos. Para conseguir este resultado me foi necessário não só inventar, mas também experimentar, e nestas experiências tinha, durante dez anos, recebido os choques mais terríveis; sentia-me com os nervos cansados. Anunciei a meus amigos a intenção de pôr fim à minha carreira de aeronauta, – tive a aprovação de todos.

Tenho acompanhado, com o mais vivo interesse e admiração, o progresso fantástico da Aeronáutica. Bleriot atravessa a Mancha e obtém um sucesso digno de sua audácia. Os circuitos europeus se multiplicam; primeiro, de cidade a cidade; depois, percursos que abrangem várias províncias; depois, o “raid” de França à Inglaterra; depois, o “tour” da Europa. Devo citar também o primeiro “meeting” de Reins que marcou, pode-se dizer, a entrada do aeroplano no domínio comercial.

Entramos na época da vulgarização  da aviação  e, nessa empresa, brilha sobre todos,  o nome de Garros. Esse rapaz personificou a audácia; até então, só se voava  em dias calmos, sem vento. Garros foi o primeiro a voar em plena tempestade. Logo depois, atravessou o Mediterrâneo. O estado atual da aeronáutica todos nós o conhecem os, basta abrir os olhos e ler o que ela faz na Europa; e é com enternecido contentamento que eu acompanho o domínio dos ares pelo homem: É meu sonho que se realiza.