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Os irmãos Wright, Santos Dumont, e o celular

By on ago 11, 2016 in Tecs |

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A abertura das Olimpíadas no Rio de Janeiro reacendeu a discussão sobre a invenção do avião. Dependendo do critério usado para a avaliação, pode-se decidir por Santos Dumont ou pelos irmãos Wright. Mas essa polêmica envolve um tema ainda mais profundo, que é a forma como os americanos e os europeus tratam as suas invenções. Digo europeus pois Santos Dumont, apesar de ter nascido no Brasil, foi educado na França, e desenvolveu suas pesquisas aeronáuticas influenciado pelo ambiente científico europeu.

De uma forma simplificada, arrisco dizer que os americanos tratam suas invenções com a visão “Eu inventei, e quero ganhar dinheiro vendendo isso”. Obviamente o europeu também quer ganhar dinheiro, mas sempre com um benefício para a comunidade em geral. Algo como “Eu inventei, e quero ganhar dinheiro compartilhando isso”.

Esse modo de pensar é bem observado na invenção do avião. Enquanto os irmãos Wright se preocupavam em manter suas experiências e pesquisas em segredo, e em tentar vender a patente do avião para o exército americano, Santos Dumont tratou de fazer demonstrações públicas e, ciente da dificuldade que era pilotar o 14 Bis, criou um “modelo popular”, o Demoiselle, e tornando seu projeto público para quem quisesse construir um.

Essa tendência europeia pode ser observada em diversos outros inventos e projetos hoje largamente utilizados:

Um dos melhores exemplos desta visão colaborativa está, hoje, na telefonia móvel. Como serviço comercial, o telefone celular surgiu nos Estados Unidos. Após o sucesso da primeira geração do serviço, várias empresas começaram a disputar pela definição do padrão de segunda geração. Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, órgãos de vários países começaram a trabalhar em conjunto, cientes de que não seria razoável que cada um tivesse seu próprio padrão de telefonia. Assim, foi criado o “Group Special Mobile – GSM”, que gerou o padrão de telefonia que hoje é usado em todo o mundo, inclusive nos Estados Unidos.

Esse grupo hoje é o 3GPP (Third Generation Partnership Project). São dezenas de grupos de trabalho envolvendo centenas de empresas, gerando todas as especificações que fazem com que celulares de qualquer marca funcionem em praticamente qualquer rede de telefonia celular do mundo. As operadoras contratam os seus vários fornecedores sabendo que seus equipamentos irão interoperar adequadamente entre si e com qualquer celular que tenha sido desenvolvido sob esse padrão. E as especificações estão todas publicadas no site 3gpp.org. Nas reuniões dos grupos de trabalho existe um compromisso em se buscar o consenso, apesar das diferenças de opinião e interesses de cada empresa.

O resultado disso pode ser observado nas empresas que estão no multi-bilionário mercado de infraestrutura para as redes de telefonia celular: os maiores nomes neste mercado hoje são Nokia (Finlândia), Ericsson (Suécia), Huawei (China) e ZTE (China). A última grande empresa americana – Lucent – fundiu-se com a Alcatel (França) em 2006 e foi comprada pela Nokia em abril de 2015.

Assim sobraram neste mercado apenas duas empresas nórdicas e duas chinesas.

Será que temos algo a aprender com isso?

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Especificamente sobre a polêmica do pioneirismo da invenção do avião, sugiro a leitura de trecho do livro de Santos Dumont O que eu Vi, o que nós veremos.